Jorge Arbache: economia do Brasil é “anómala”

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O economista brasileiro Jorge Arbache deu, no passado dia 5 de Dezembro, uma conferência no ISCTE-IUL sobre a situação económica e política do Brasil. No evento, organizado pela Casa da América Latina e o Instituto Marquês de Valle Flôr, Arbache começou por reflectir sobre a elevada polarização política do Brasil, resultante das recentes eleições presidenciais, que terá “consequências importantes” sobre a situação política do país.

De acordo com o também Professor da Universidade de Brasília, a elevada fragmentação partidária no Congresso do Brasil (28 partidos representados, dos quais 23 vão coligar-se, no governo, com o Partido Trabalhista da vencedora, Dilma Rousseff) deverá gerar bloqueios políticos, motivados pelo peso eleitoral do Partido Social-Democrata do Brasil (PSDB), o principal opositor, cujos principais líderes são políticos experientes. Dilma diz, no entanto, que as mudanças que pretende implementar poderão ser “mais intensas e rápidas por ter havido equilíbrio” nos resultados eleitorais (51% na segunda volta das eleições, contra 49% de Aécio Neves). A serem alcançadas, a reforma política, tributária e burocrática que Dilma pretende poderão promover o crescimento económico, de acordo com Arbache.

O economista mostrou-se, no entanto, pessimista. O governo, disse, “vai enfrentar pesadas dificuldades” na prossecução de medidas sectoriais, pois contará com a oposição de sindicatos e do PSDB. Esses entraves tornarão difícil que o mercado laboral do Brasil se torne mais produtivo e eficiente. Arbache assinalou que o crescimento económico do Brasil nos últimos anos foi alimentado sobretudo por um ‘boom’ de ‘commodities’, pelo crédito fácil e pelo consumo de massas.

O “paradoxo do baixo desemprego e baixo crescimento” do Brasil actual é acentuado, segundo Arbache, pela rápida transformação demográfica, que tem levado a uma “queda acentuada da população activa”. O sector dos serviços, acrescentou, tem crescido enormemente, para 70% actualmente, “uma anomalia” pois só os países mais desenvolvidos do mundo atingem tal percentagem. Paralelamente tem havido uma “desindustrialização precoce” e “uma reprimarização das exportações” brasileiras, mais aspectos que reforçam a ideia de Arbache de que o país é “uma anomalia”, em termos económicos. Por sua vez, o objectivo de superávit nas contas públicas brasileiras, em 2015, será, no entender de Arbache, alcançado apenas com corte nas despesas públicas e um aumento de impostos.

Alfredo Valladão, Professor da Paris School of International Affairs na Sciences-Po, em Paris, interveio para afirmar que o Brasil “é grande, nunca precisou de se modernizar”, e sempre apostou mais na Organização Mundial do Comércio e num mercado protegido na América do Sul, em vez de abrir o seu mercado ao investimento externo. Nisso contrasta, referiu, com a Aliança do Pacífico recentemente criada pelo Peru, Chile, México e Colômbia. Há, assim, uma espécie de nova “linha de Tordesilhas”, mas na América Latina, que divide países proteccionistas e países abertos economicamente. O clientelismo é, no Brasil, endémico e “passar desse modelo para um modelo competitivo será difícil”, concluiu.

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