Texto de empresário no Nordeste brasileiro

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[Texto de Manuel Barros, empresário e administrador da Terra Brasilis – Participações e Empreendimentos]

Serei porventura mais um dos novos navegadores, que a exemplo do que foi acontecendo ao longo de séculos, largam as suas raízes e atravessam mares em busca de novos negócios e, quem sabe, de aventuras. Terei sido contaminado pelas descrições de minha mãe ao narrar as viagens que o meu avô, que infelizmente não conheci, no princípio do século XX fez ao Brasil e, em especial, a Manaus.

Conheci o Brasil pela primeira vez há mais de 30 anos, começando pelo Rio de Janeiro, em viagem de férias de fim de ano, e desde então optei por passar as minhas férias neste país, cruzando as diferentes latitudes deste imenso continente e visitando diferentes cidades e estados, desde o litoral até á Amazónia. Nesses anos a moeda brasileira ia constantemente mudando de nome, ora cruzeiro, ora cruzado, ora cruzeiro novo. O Brasil conhecia uma hiper inflação e uma desvalorização cambial galopante. Para um europeu era muito barato fazer férias no Brasil.

Nas várias que realizei tive a oportunidade de conhecer os diferentes b” dentro do Brasil, com as suas diferentes culturas e os seus linguajares. Deu para perceber que no Brasil se fala uma língua muito parecida com o português, mas cujas palavras não significam necessariamente a mesma coisa que em Portugal, por exemplo: comboio é trem, casa de banho é banheiro, etc.

Numa dessas viagens, acompanhado por um sócio espanhol e outro português, percebemos que seria oportuno investir no Brasil, o que viemos a fazer no decorrer dos anos noventa. Através de uma parceria com um empresário local, adquirimos um terreno com mil hectares (10km2), no município de Paracuru, uma cidade a 80km a oeste de Fortaleza, Estado do Ceára, Nordeste do Brasil, com uma frente de mar de cerca de 4km, e ai desenvolvemos o projecto de uma cidade turística, que denominámos Dunas do Paracuru – Ceará Atlantic Resort.

A aprovação do master plan deste empreendimento foi tudo menos fácil, primeiro porque não havia conhecimento nem leis para este tipo de operações e depois a burocracia brasileira foi evidente em toda a sua plenitude. Embora este projecto fosse considerado pelo Governo do Estado como muito importante para o desenvolvimento turístico, que despontava no nordeste, foi necessário lutar em todas as frentes: Polícia Federal, para obtenção de visto de residência; Receita Federal, com impostos; Banco Central, com câmbios e importação de divisas; tribunais, cartórios, órgãos ambientais, etc. Um sem fim de avanços e recuos na tramitação dos projetos e documentos, mas foi uma aprendizagem que se revelou muito útil na medida em que permitiu conhecer melhor o país, a sua gente, as suas leis, usos e costumes.

Demorou tempo, foi preciso pagar uma jóia de entrada para ser admitido como sócio do clube de investidores, mas como em tudo o que fazemos com correcção, abnegação, convicção e confiança, deu certo e fomos aprovados. Este terreno foi vendido com um bom desempenho, há cerca de cinco anos, a um grupo investidor espanhol que só desenvolveu até hoje a criação de um parque eólico na parte posterior do terreno.

Durante este período assistimos à mudança radical da economia do Brasil, à criação de uma nova moeda, o Real, ao controlo em baixa da inflação, ao aparecimento de uma classe média com notório poder de compra e ao enriquecimento do país, que de devedor, com uma das maiores dívidas externas do mundo, passou a país com superavit.

Durante estes anos a minha vida dividiu-se entre Portugal e o Brasil, com viagens constantes de ida e volta, e assim tive a possibilidade de aproveitar esse tempo para conhecer melhor o país e também o procurar de novas oportunidades de negócios. Foi assim que liderei a compra do Hotel Sofitel – Quatro Rodas, em São Luís, no estado do Maranhão, que mais tarde vendi ao Grupo Pestana. Também co-promovi a construção e venda de um edifício de 207 apartamentos na Beira-Mar de Fortaleza, denominado Terraços do Atlântico, e participei em diversos loteamentos, uns de caráter mais popular e outros de classe média e média-alta.

Chegados aos dias de hoje, e perante a falta de perspectiva económica positiva que ocorre na Europa, e em especial em Portugal, tomei a decisão de alterar a minha forma de viver e optei por residir em permanência no Brasil, com deslocações regulares à Europa e a África, onde mantenho diversos negócios.

Estou a acompanhar, na qualidade de accionista fundador, a fase de lançamento de um projecto para a construção de um edifício de luxo com duas torres de 22 apartamentos de 55.000m2 cada, um apartamento por andar, num terreno situado na beira-mar de Fortaleza, em frente a um parque público por nós cedido à cidade numa parceria publica-privada. Numa segunda fase, este projecto será complementado por mais uma torre de 22 andares, destinado a 44 apartamentos de 38.000m2 cada.

Paralelamente, sou sócio-gestor de vários projectos de urbanização em elaboração e execução em diferentes cidades do Ceará, que no total engloba cerca de 500 hectares e que vai criar mais de seis mil lotes residenciais e comerciais, a desenvolver ao longo de dez anos. Também patrocino um projecto de novas tecnologias, que pretendo desenvolver no Brasil, que no seu essencial será aplicado na área de agricultura inteligente, sendo um cluster inovador a nível mundial.

Acredito que a próxima eleição para a Presidência da República do Brasil não irá mudar, no essencial, o rumo de evolução positiva que este país tem conseguido ao longo desta ultima década, pelo que estou convencido que será sempre oportuno investir num país com mais de 200 milhões de habitantes, muito rico em commodities e com uma população em crescendo, cerca de 1% ao ano, o que quererá dizer que em cinco anos o Brasil acrescentará mais 10 milhões de pessoas.

Pela minha experiência diria que depois de identificado o alvo de negócio, a melhor forma de abordar investimentos no Brasil será numa primeira fase aconselhável a parceria ou compra de participações com players locais, e desta forma garantir a facilidade de inicio imediato de actividade e igualmente garantir o conhecimento directo das formas e segredos do negócio.

Termino aconselhando todos os investidores a não se deixarem influenciar pelas adversidades e contrariedades que possam vir a encontrar ao longo do desenvolvimento de planos de internacionalização, e que acreditem que investir no Brasil pode ser um desafio que trará a médio e longo prazo uma enorme satisfação e, claro, vantagens financeiras. O Brasil foi e sempre será uma terra de oportunidades.

Fortaleza, Setembro de 2014