Conferência de abertura de Livio Sansone (excerto)

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Livio Sansone, professor na Universidade Federal da Bahia, é o conferencista inaugural da edição de 2014 do curso de Verão América Latina Hoje. A Casa da América Latina pediu-lhe um excerto da sua conferência De alteridade para diversidade – Cidadania e questões étnico-raciais na América Latina.

“Obrigado pelo convite que me permite repensar sobre 20 anos do Brasil, 12 deles com um governo do PT, assim como rever o desenvolvimento da pesquisa sobre este tema. Esta região passou de ser vista como a parte mais ‘etnofóbica’ do mundo, com um sentimento de pertença de cunho étnico, em boa parte devido à sua forte tradição catolica que não favoreceria as politicas identitárias, para a região onde mais se experimentou com medidas redistributivas ou de acção afirmativa em prol dos grupos étnica e/ou racialmente discriminados no Ocidente.

Nesta conferencia falarei de como a América Latina – que até os anos de 1980 era descrita por muitos como um continente onde nunca haveria politicas identitárias por causa da força do pensamento (ecuménico) católico, da longa tradição de mestiçagem e da popularidade dos discursos centrados em torno da pertença de classe – conseguiu desenvolver-se e tornar-se quiçá na região mais interessante do mundo em termos de produção e de revitalização de identidades étnicas de matriz tanto indígena quanto africana.

Houve, de facto, uma rápida e complexa ressemantização de ícones e termos associados com as identidades indígenas e negras, que passaram rapidamente de ser historicamente apresentadas como ónus, estando de facto associadas a práticas de exclusão e racismo, para um bónus – fatores que podem contribuir positivamente para um mais abrangente processo de inclusão social. Na minha fala tencionarei mostrar as novas procuras de cidadania embutidas nestas identidades, mas também uma nova serie de contradições que elas apresentam para a modernidade latino-americana.

Preparar esta conferencia permite-me sobretudo sair do meu quotidiano para aprender muito e pensar sobre duas questões que me interessam muito: o processo de patrimonialização de aspectos das culturas populares e étnicas, sobretudo do intangível; e a percepção das desigualdades extremas e duráveis em contextos de nova exposição à globalização e às suas tecnologias anexas. O que mais me interessa é a relação entre estes dois temas: o que significa, para quem sempre foi discriminiado e ‘esquecido’ na organização da memória de um país, passar para a condição de interessante, merecível de apoio, resgate e até musealização. Este é o processo que vivenciamos hoje no Brasil: caracteristicas, como a negritude, que historicamente foram vivenciadas como ónus, estão a ser hoje apresentadas como possível bónus.”