Entrevista a Kenia Liranzo sobre ‘Retorno’

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[Nota: Entrevista republicada]

O que a fez decidir, na sua passagem pela Universidade de Brasília, estudar o tema do tráfico de mulheres?

Este tema passou a ser parte dos meus interesses pessoais e artísticos antes de estudar na UnB no ano de 2006. Fiz parte do elenco do filme Me duele el Alma no ano 1993, uma realização holandesa e dominicana, uma produção do Centro de Orientación e Investigación Integral (COIM). Trata-se da historia de uma jovem dominicana que viaja para a Holanda para trabalhar, sem saber que seria exibida numa vitrine cada noite. Na pesquisa para criar o meu personagem (amiga que motiva a jovem e ajuda-a a realizar a viagem) conheci histórias que deviam ser contadas, percebi que o tema não tinha a atenção que precisava no mundo.

Normalmente fala-se da pobreza, da exclusão social, falta de recursos para a educação, mas há um aspecto obscuro: um grupo de pessoas que aproveita precisamente a pobreza e a ignorância para enriquecer, movimentando recursos económicos e tendo poder para ultrapassar leis e avançar nos seus negócios criminosos, como a modalidade nova de escravidão que é o tráfico de pessoas. São pessoas que utilizam o medo destas jovens que muitas vezes já haviam sido maltratadas antes, pelos pais ou pelos maridos. É preciso lutar pela prevenção e unificar leis nos diferentes países de origem, trânsito e destino do tráfico para combater este crime. Isso tudo foi a motivação para escolher o tema do tráfico de mulheres.

O que de essencial aprendeu ao longo do seu trabalho de pesquisa?

O problema deste tipo de pesquisa é o seu enfoque técnico, mais do que humano. O importante passa a ser: cifras dos organismos internacionais, na época ano 2006, tratados internacionais (a Convenção de Palermo é a convenção contra a delinquência organizada transnacional – ano 2000). Também estudei a maneira de agir das redes do tráfico internacional, especificamente no Brasil e na República Dominicana. Isso tudo é importante, sim, mais muito frio, porém. Esta pesquisa leva-nos a histórias, muitas delas particularmente dramáticas, que nos obrigam a contar da melhor maneira que uma actriz pode fazer, no palco.

Estas historias levam a conhecer sentimentos das vitimas como medo, dor, saudades, auto-estima baixa, culpa. Elas precisam de ser socorridas, mas têm de o ser com amor – ver a sua situação compreendida sem preconceitos. Pela outra parte, tendo em conta as realidades em diferentes países observamos que as autoridades de Estados que são signatários da Convenção de Palermo continuam a tratar as vitimas como criminosas. Este convénio estabelece a assistência e protecção das vítimas, mas isso não é cumprido por todos os signatários do convénio. Na pratica é preciso unificar leis ligadas aos crimes internacionais para garantir a protecção das vitimas e evitar a impunidade dos criminosos.

Como foi transpor esse trabalho escrito para uma peça de teatro?

Não exactamente foi transpor o trabalho para a peça. A peça é resultado da pesquisa para realizar o trabalho. Histórias de jornais, de documentários, entrevistas, livros. Por exemplo: Ni color de rosa ni color de hormiga, mujeres migrantes cuentan su historia, COIN-2002. Cada relato tem a sua própria carga dramática.

Através do teatro podemos sentir essas vivências e expressá-las de forma verosímil. O desafio consiste em mergulhar nos sentimentos e emoções das protagonistas das histórias escolhidas, interiorizar, viver cada uma delas e fazer com que o público seja parte dessa experiência. Construir cada personagem a partir das características próprias de cada um, das suas vivências, contexto social e psicologia. A música, os elementos cenográficos e a iluminação vão criar a atmosfera que envolve as lembranças e sonhos, em contraste com o relato presente de cada personagem, que conta a sua história, composta de momentos dramáticos e às vezes engraçados.

Que mensagem deseja transmitir para convencer eventuais indecisos a irem assistir ao espectáculo?

Só dizer que quem quiser olhar de uma maneira diferente o tema do tráfico de mulheres, conhecer os fantasmas, os medos, mas também a luta pela superação, a saudade, a ternura de mulheres, muitas vezes mães, que sonham um futuro melhor para os filhos e ficam prisioneiras, esta é uma oportunidade. Retorno é uma peça intimista, feita para um público pequeno, que vai ser parte das histórias. que vai ver de perto como estas mulheres não são apenas vítimas do tráfico, chegam às mãos de criminosos deste modelo de escravidão porque já são vitimas da injustiça social, da desigualdade, na maioria dos casos são vitimas de violência nos seus lares.

É um espectáculo unipersonal, a actriz desdobra-se em vários personagens: vitimas e criminosos, com a actuação especial do actor Hernando Téllez, que interpreta o repórter de notícias. A diversidade de personagens e a riqueza da música dão uma agilidade e movimento muito particular à peça, Um dos personagens interpreta ao vivo a canção Puro teatro do autor Tite Curet de Puerto Rico. É uma peça madura, com 7 anos, tendo sido apresentada em cidades como Santo Domingo, Brasília, Cartagena, San Andrés Islas e Bogotá.