Mario Vargas Llosa defendeu “espírito crítico”

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O Prémio Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa disse-se “honrado” com o recebimento do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa (UNL). No seu discurso, defronte a um auditório preenchido na Reitoria da UNL (num evento de que a Casa da América Latina foi parceira), no dia 22 de Julho, o peruano agradeceu “o reconhecimento” e disse ter agora um “mandato de responsabilidade intelectual e cívica”, que é seu dever honrar.

Vargas Llosa, que recordou a sua actividade académica, afirmou nunca ter crido que houvesse um hiato “entre universidade e criatividade” artística: “sempre pensei que a universidade é o âmbito onde se estimulam as actividades criativas e se submetem à avaliação”, com o subsequente “impacto na sociedade”.

O autor elogiou a “tradição de liberdade” nas universidades latino-americanas, que porém estão inseridas em sociedades “por vezes” barbarizadas pela ditadura e pela violência em geral”. A universidade deve, no seu entender, “abrir-se à sociedade e derramar sobre ela os benefícios que a cultura traz consigo”.

O Nobel lembrou ainda o seu “grande amigo” José Cardoso Pires, através de quem descobriu Fernando Pessoa, um “extraordinário criador”. Vargas Llosa declarou que ele e Cardoso Pires estiveram sempre “convencidos de que a obrigação do escritor não é só escrever bem, mas também o compromisso cívico, optar pelas melhores opções, defender os direitos humanos, a liberdade, opor-se à mentira, à corrupção das instituições, à injustiça, ao sofrimento na sociedade”. Para atingir estes objectivos, entende, “a literatura é uma arma eficaz”. Estas crenças são, argumentou, consideradas “antiquadas” nos tempos actuais, em que “escritores jovens dificilmente as aceitam”, por as considerarem “arrogantes, pretensiosas”.

Vargas Llosa, não se referindo explicitamente ao seu mais recente livro ‘A Civilização do Espectáculo’, disse que “a opinião pública quer entretenimento e diversão”, mas “não se pode criticar” pessoas que “passam grande parte do seu tempo a trabalhar, na luta pela sobrevivência”, e que nos tempos livres apenas procuram “esquecer essa dura luta”. Para os que para a leitura têm disponibilidade, acrescentou, ela é necessariamente “um prazer”, mas “se fosse só diversão empobreceria a sociedade”, cujos membros devem ter “espírito crítico”.

De acordo com o autor peruano, “nada contribui mais” para assombrar a insatisfação humana face à sociedade do que “um bom livro, uma boa estória”, que são criados pelos humanos como expressão de que “a realidade está mal feita”. Autores como Marcel Proust e William Faulkner, entre outros que referiu, “fazem-nos perceber que a realidade em que vivemos está sempre abaixo das ‘realidades’ que podemos inventar”. Descobrir e perceber as imperfeições da sociedade, concluiu, é “o motor do progresso”.

No entender de Vargas Llosa, “as ditaduras descobriram que as estórias atiçam no coração humano o saber de que a realidade estará sempre mal feita”, razão pela qual estabelecem “sistemas de controlo da ditadura”. É, por isso, argumentou, “importante uma literatura viva”, para “manter vivo um espírito de insatisfação, de transformação, sem o qual não existiria progresso, não teríamos saído das cavernas e olhado as estrelas”.

Veja aqui o discurso integral de Mario Vargas Llosa:

Nuno Júdice elogia Vargas Llosa por valorizar a cultura

Para além do Reitor António Rendas – que disse “honrar Portugal” a presença de Vargas Llosa, autor que elogiou por “usar magistralmente a palavra” -, a Universidade Nova de Lisboa fez-se representar pelo Presidente do Conselho de Administração da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH-UNL), Francisco Pinto Balsemão, que apadrinhou a atribuição do Doutoramento a Vargas Llosa, e pelo docente da FCSH e poeta Nuno Júdice, que a solicitou formalmente.

No seu discurso, Júdice descreveu a vida de Vargas Llosa como uma vida “empenhada no serviço do Homem, dos seus valores”, mas também do Peru. Elogiando o “cosmopolitismo” do homenageado, numa “época que desvaloriza a cultura”, Júdice salientou a sua qualidade na “arte do conto e de contar”, que “contamina o leitor”, algo a que não é alheia a “técnica do suspense” que Vargas Llosa emprega nas suas “comédias humanas”.

Nas obras de Vargas Llosa, em que “o narrador não toma partido”, não coloca nas suas personagens “a etiqueta dos bons e dos maus”, é notória a “visão ampla do mundo”, o “desenho implacável” dos aspectos positivos e negativos das sociedades. A sua forte participação política, “contra ventos e marés”, foi também referida por Júdice.

Vargas Llosa à CAL: Relações entre Portugal e América Latina ainda “muito ténues”

Na conferência de imprensa que decorreu depois da cerimónia, Vargas Llosa foi questionado pela CAL sobre a evolução, nos últimos anos, das relações económicas e culturais entre Portugal e a América Latina. Para o autor, essas relações são “muito ténues”, uma afirmação que disse valer também para Espanha.

Vargas Llosa defendeu uma maior integração entre as economias europeias e latino-americanas, lembrando que na América Latina há hoje várias “democracias, economias de mercado”, com “crescimento económico robusto”, aspectos que são “interessantes” para a União Europeia.

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