Dar palco a quem procura “um lugar onde existir”

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O dramaturgo chileno Juan Radrigán foi o convidado da última sessão do Ciclo sobre Teatro na América Latina. No dia 1 de Julho de 2014, no Teatro D. Maria II, Radrigán – que escreve para teatro desde os 42 anos e produziu já 42 guiões – juntou-se à actriz e encenadora Natália Luiza numa conversa sobre a sua obra. Mas antes assistiu a uma curta encenação da sua obra Factos Consumados (Hechos Consumados no original), pelos actores José Neves, Manuel Coelho e Paula Mora.

Natália Luiza começou por introduzir a obra de Radrigán como dando destaque a situações trágicas, ainda que desconstruindo-as com humor. Mais do que isso, reagiu o dramaturgo, na sua obra está patente a vivência de quem busca “um lugar onde existir” no seio da sociedade, algo muito forte em contexto ditatorial, como o do regime de Augusto Pinochet. De acordo com Radrigán, as suas personagens “querem viver, coisa muitas vezes difícil em ditadura. Há muitos obstáculos, sobretudo quando [as pessoas] são pobres”. “O poder não tem rosto”, acrescentou.

A dramaturgia de Radrigán é, assim, “muito existencial” (nas palavras de Natália Luiza), aborda o tema do amor e, mais recentemente, metafísica. É também tendencialmente triste: “Sinto-me melhor com a tristeza. Sei que a alegria existe, mas não a encontro muito por aí”. No Chile, onde vive, “o espaço humano mais povoado, onde há mais gente, é a solidão”. Os chilenos são em geral pessoas com “poucos desejos e objectivos” de vida, alegou, referindo ainda que na sociedade chilena é muito forte o tema da “ausência do pai, a ausência de alguém a quem amar ou odiar”.

Radrigán disse ainda que “para uma obra final de 40 páginas” escreve, ainda e sempre à mão, “umas 300”. As personagens, que cria a partir de retalhos de várias pessoas com quem se cruzou pessoal ou profissionalmente ao longo dos anos, podem ser compreensíveis por pessoas “de qualquer lugar do mundo”.