Juan Manuel Roca: “Poesia é uma forma de pensar”

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O poeta colombiano Juan Manuel Roca esteve em Lisboa a convite da Casa da América Latina e da Embaixada da Colômbia, tendo sido um dos oradores no painel que apresentou o seu livro Os cinco enterros de Pessoa, no Centro Cultural de Belém, no dia 22 de Março. A Casa da América Latina falou com Juan Manuel Roca sobre a sua obra e sobre esta sua – primeira – visita a Portugal.

Como foi para si a experiência de apresentar o seu primeiro livro traduzido em Portugal, tendo a seu lado amigos e colegas que o elogiaram profusamente?

É muito gratificante ser traduzido para uma língua da qual provém tão alta poesia, como é o português. Fui um bom leitor de [Fernando] Pessoa, de Mário de Sá-Carneiro, um pouco de Eça de Queirós, mas nunca pensei que a minha poesia pudesse ser traduzida para uma língua tão doce e flexível, que pudesse ser dita de forma tão bela. Esta é a sensação imediata, sensorial, do que ouço quando tento ler os meus poemas num idioma que não é o meu. Para mim o lançamento do livro foi duplamente gratificante. Antes de mais, porque é um privilégio ter um tradutor como Nuno Júdice, com quem sinto tanta empatia, não apenas pessoal mas também poética. Creio que há certos argumentos que ele desenvolve, para demonstrar a ligação entre o cantar e o contar, que também me interessam muito no exercício de escrever. É também muito emocionante notar que há tanta gente envolvida nesta tradução da minha obra.

Leu atentamente esta tradução de vários dos seus poemas para português?

Até onde consigo entender, encontro uma grande semelhança idiomática entre as duas línguas. Lendo os poemas em ambas as línguas o que encontrei foi uma grande fidelidade em relação ao que tentei escrever, mas também algumas boas surpresas.

Essa fidelidade abarca também a musicalidade dos seus poemas?

Creio que sim. O bom de ser traduzido por um poeta é que a primeira coisa que um poeta tem de ter é ouvido, que é o mesmo para a escrita e para a tradução – ainda que neste caso haja uma outra complexidade, porque se trata de uma música de outra pessoa.

Esta é a sua primeira visita a Portugal?

Sim.

Já teve a oportunidade de conhecer um pouco de Lisboa?

Sim, passeei um pouco pela cidade e fui a Sintra, que me pareceu maravilhosa. A paisagem, física, geográfica, espiritual, agradou-me muito. Pela forma de respirar, de caminhar e de conversar das pessoas de Lisboa parece-me que vivem a um ritmo lento, o que me agrada, pois têm tempo para saborear e desfrutar das coisas pequenas. Venho de um país muito convulsionado, que há anos se encontra numa encruzilhada histórica, e ter encontrado aqui este sossego, com uma sesta dos sentidos em vez de uma festa dos sentidos, foi muito bom.

Como leitor e apaixonado pela obra de Fernando Pessoa, acha que esta Lisboa que encontrou tem traços da que ele lhe descreveu?

Para além do fetichismo que muitas vezes temos pelos autores que sacralizamos, porque nos deram tanto e são como famílias que elegemos, parece-me que Pessoa projectou muito da cidade para dentro de si. Há muito de melancólico não só na poesia de Pessoa mas também, tenho essa ideia, no espírito dos portugueses. Foi, por isso, muito emocionante encontrar-me no contexto de Pessoa, que muitas vezes me dá a sensação de ter sido um homem de ficção, que se inventou desdobrando a sua personalidade. Creio que o clima espiritual de Lisboa está na sua poesia.

E favorece-a?

Sem dúvida.

Foi recentemente publicado um artigo de opinião [de Rui Tavares, no jornal Público, 10/03/2014] em que se falava de como Fernando Pessoa escapou à “angústia da influência” de Shakespeare, e outros grandes autores, declarando que o seu ideal poético era Alberto Caeiro, uma sua criação. No seu caso, grandes autores como Álvaro Mutis e Gabriel García Márquez não terão gerado alguma angústia semelhante?

Creio que quando há autores tão próximos da sensibilidade de uma nação, que conseguem condensar o espírito de um espaço geográfico, de uma forma de proceder, uma maneira de exorcizar a influência que necessariamente exercem é ler esses autores com muito entusiasmo, deixar-se penetrar pela sua linguagem, sem temor. Todo aquele que não é influenciado é primitivo; o que é importante é moldar essas influências de acordo com o que cada um procura fazer, para que a obra resultante não tenha um carácter mimético. O autor que mais influência exerceu sobre mim não é colombiano, mas peruano. César Vallejo foi um grande poeta da língua…

De quem se falou, aliás, neste sábado, na apresentação do livro Onze poetas do modernismo hispano-americano.

Sim, mas eu creio que ele vai além do modernismo, é muito mais do que isso. É vanguardista, expressionista, tem muitos registos (entre os quais o modernismo), e em mim exerceu uma influência decisiva. No caso da prosa, o narrador com uma “voltagem” mais poética, no meu entender, pelo ascetismo da linguagem, pela condensação e pela capacidade de criar imagens, é Juan Rulfo. Por vezes penso que a influência de Rulfo [em mim] pode ser maior do que a de García Márquez. Costumo dizer aos meus amigos mexicanos que me sinto mais cidadão de Comala do que de Macondo.

Ouviu o Embaixador da Colômbia em Portugal dizer que Juan Manuel Roca é melhor embaixador da Colômbia do que ele. Quer responder-lhe?

Parece-me um rasgo de generosidade excessiva, porque fazer o que ele faz, publicar livros de importantes autores latino-americanos por primeira vez num país, não é comparável com o que eu faço, ou com a possibilidade que me foi dada de ler os meus poemas para o público presente.

Mas a verdade é que esta edição de Os cinco enterros de Pessoa faz com que Juan Manuel Roca entre no lote dos tais importantes autores latino-americanos…

Sim, mas eu creio que é uma generosidade excessiva, hiperbólica como somos nós, colombianos. Mas agradeço enormemente.

Os poemas incluídos neste livro representam de algum modo a sua obra?

Deixei ao livre-arbítrio, tanto de Nuno Júdice como de Lauren Mendinueta, a escolha dos poemas a serem incluídos neste livro. O que verifiquei, no final, foi que me agradou muito a selecção que fizeram. Não porque eu goste de ler o que escrevo (sou um insatisfeito permanente), mas no sentido de que ali incluíram muitos registos. Há poemas de diferentes livros e períodos. Agrada-me o “clima” resultante da escolha que fizeram.

Pensando concretamente no público português, a que tipo de leitores diria que se destinam os seus poemas?

Creio que, sobretudo, a leitores de poesia que não pensam que a poesia é um género literário, mas uma forma de pensar. A poesia é igual à filosofia nesse sentido. Pessoas que busquem caminhos distintos, no caso da poesia: poemas que partam de imagens e de ritmos, mas não necessariamente de ideias ou de sentimentos. Tanto a poesia ideológica como a excessivamente sentimental são algo com o que não tenho particular afecto, mas penso que há cada vez mais leitores de poesia que vêem a poesia como uma forma de respirar e andar pelo mundo, não como uma arte puramente estetizante…

… nem ideológica.

Nem ideológica. Mais como uma forma de ver o mundo. Gostaria – e não o sei, porque escrevo para pessoas que não conheço – que o leitor dos meus poemas fosse um leitor reflexivo, que desconfiasse muito da realidade. Gosto muito da ideia de [Vladimir] Nabokov, de que cada vez que seja usada a palavra realidade, ela seja usada entre aspas.