Entrevista a Diniz Conefrey sobre os tainos

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A Casa da América Latina falou com Diniz Conefrey, ilustrador e especialista em História da América Pré-Colombiana, sobre a exposição de Eduarda Coutinho e sobre o tema do seu trabalho, os tainos de Cuba.

Quais os traços fundamentais da civilização taina, que a tornam um caso de estudo interessante?

Julgo que, para além dos evidentes deslumbramentos que constituem a criação de altas estruturas sociais e arquitectónicas, a história acaba por nos mostrar que o diálogo da natureza com a humanidade revela riquezas inusitadas onde confluem os segredos das harmonias mais simples. Talvez que estas estejam mais próximas daquilo que é realmente essencial. As terras insulares do Caribe giram em redor de um mar imenso, onde podemos localizar três grandes áreas: as Antilhas Maiores, onde se incluem Cuba e Jamaica, entre outras; as Antilhas Menores, no arco que vai desde Porto Rico até às costas venezuelanas; e as ilhas próximas do continente, algumas delas de uma extraordinária riqueza biológica formada no remoto Pleistocénico. Entre todas elas existem notáveis diferenças geológicas. As Antilhas Maiores estão conectadas de forma tectónica com a América Central, com as serras da Guatemala e com o Sul do México. Por isso se alternam ilhéus de montanhas escarpadas, que por vezes caem abruptamente sobre a costa, com profundos abismos marinhos. A maior parte das Antilhas Menores, pelo contrário, são constituídas por vulcões, estando toda a zona sujeita a uma grande actividade sísmica. Outras são recifes de corais, sobre as quais os ventos depositaram terra continental desenvolvendo um espesso manto vegetal. O grau de humidade e temperaturas estáveis, entre os 20 e 30 graus, permitiram o grande desenvolvimento que o bosque tropical húmido alcançou no interior das ilhas. O outro grande ecossistema da região é constituído pelo meio ambiente de terreno lodoso. Estes dois ecossistemas muito complexos permitiram aos povos do Caribe alcançar um desenvolvimento notável, porque, sendo ambos diversos e complementares, estão tão próximos entre si que podem ser utilizados simultaneamente por um mesmo grupo humano sem a necessidade de grandes esforços nem de complexas organizações.

Em geral, podemos afirmar que o Caribe foi uma região de grandes e continuadas migrações de povos procedentes de dois focos distintos: um do litoral da América Central mais a costa Norte colombiana e o noroeste da Venezuela. E outro, do nordeste da Venezuela, o Norte do rio Orinoco e da bacia amazónica. A última migração veio a ter lugar nos primeiros séculos da nossa era. Foram os chamados «neoíndios» por alguns especialistas, «ostinoides» por outros ou «tainos» por outros ainda. Esta última acepção, segundo Juan Carlos Garavaglia e Juan Marchena (América Latina de los orígenes a la independencia. Volumen I; Crítica, S.L., Barcelona, 2005) resulta antiquada porque os tainos era um estrato social e político entre os arawaks. Porém, desde há muito a literatura arqueológica do Caribe diferenciou os grupos pré-agrícolas como ciboney e aos grupos agrícolas mais tardios como tainos e todavia assim aparecem em várias publicações. As Antilhas foram colonizadas por dois grupos étnicos diferentes que chegaram em duas vagas distintas: primeiro os povos conhecidos genericamente como arawaks, que ocuparam as Antilhas Maiores. De seguida os caribes, instalando-se na costa Este da Venezuela e nas Antilhas Menores. Os dois grupos procederam das regiões Norte e nordeste da América do Sul. Os arawaks eram mais peregrinos e de maior impacto como difusores da cultura mais complexa da região. Nas Antilhas Maiores encontraram um espaço magnífico para se desenvolverem, estendendo pelo Caribe o sistema de cultivo em montículos, ou conucos  – consistindo em empilhar a selva abatida e o húmus, em determinados lugares, misturando tudo com terra, semeando sobre estes montículos. Esta aplicação tornou-os sedentários. De Porto Rico passaram à Hispaniola (Haiti e República Dominicana), onde se estabeleceram os grupos mais numerosos e evoluídos; ainda que outros se expandissem também para Cuba e Jamaica criando um grande espaço cultural arawak que seria o que encontraram os europeus em 1492. Nessa altura, a sua organização social já tinha evoluído para formas mais complexas, abandonando as chefias tribais e adquirindo características caciquistas. A sua língua comum (o Arawakan) foi um factor de uniformidade.

“Eram hábeis ourives, ainda que preferissem as peças importadas do continente com a fundição de ouro e cobre. Estas peças que engalanavam os homens de estatuto, dentro da indumentária geral simples própria das temperaturas que aqui se fazem sentir, traíram a sua afectividade e modo de vida sustentável, relegando-os ao extermínio e à mestiçagem.”

Em todas as ilhas  a estrutura social estava delimitada. Presidiam as chefias étnicas hereditárias, transmitidas normalmente por linha materna, sendo que muitos chefes foram mulheres. O cacique apoiava-se por um amplo grupo de descendentes, relacionando-se através da poligamia com outras famílias de elite: era o chefe religioso e também um líder na caça e na guerra contra os caribes invasores que assolavam os seus territórios. Debaixo da sua autoridade figurava um grupo de nobres chamados taínos, uma espécie de aristocracia guerreira. Finalmente os sacerdotes, que recebiam vários nomes – como moján ou mohanes. À parte as famílias produtoras, que constituíam a maior parte da população, existiam também uns servos chamados naborías que realizavam trabalhos para as chefias. A terra era entendida e trabalhada como um recurso comunal, com uma clara divisão do trabalho entre homens e mulheres. Os núcleos da população eram numerosos e dispersos. Alguns alcançaram cifras superiores ás 2.000 pessoas e a densidade demográfica em redor das zonas agrícolas foi muito alta. Cálculos aproximados sobre a população do Haiti para 1492 situam-na em volta de um milhão de habitantes, um pouco menos para Cuba e menos ainda para Porto Rico – em função do tamanho desta última e porque as incursões dos caribes a tornavam menos estável. Nas suas localidades as casas construíam-se em redor de uma praça; nesta tinham lugar as funções públicas, religiosas, rituais e festivas. Existia uma cerimónia, uma espécie de jogo de bola vinculado com os mesoamericanos, chamado batey, donde ficou o nome adstrito a toda a praça e, posteriormente, ao conjunto das habitações nos engenhos açucareiros antilhanos.

A vida religiosa era complexa, dirigida pelos sacerdotes, a meio caminho entre os curandeiros, a adivinhação e a magia. Os seus deuses, chamados Zemis, eram seres sobrenaturais situados noutra esfera, com os quais as chefias e os sacerdotes comunicavam mediante a ingestão de alucinogénios. Durante o transe viajavam à terra dos deuses, numa migração metafísica que pode estar relacionada com a tradição destes povos, que tanto erraram durante séculos. Aí, tratavam com os Zemis dos assuntos e problemas da comunidade.

O que mais chamou a atenção dos primeiros europeus, sobre os arawak, foram as suas peças de ouro: eram hábeis ourives, ainda que preferissem as peças importadas do continente com a fundição de ouro e cobre. Estas peças que engalanavam os homens de estatuto, dentro da indumentária geral simples própria das temperaturas que aqui se fazem sentir, traíram a sua afectividade e modo de vida sustentável, relegando-os ao extermínio e à mestiçagem. Algumas das palavras por si usadas, como kanoa, tabaco ou juracán (“huracanes”, “hurricanes”) foram incorporadas no espanhol e inglês. Assim, apesar de terem desaparecido como povo, a sua herança encontra-se nas línguas modernas de vários países.

O que de essencial distingue a etnia e a cultura tainas das demais civilizações ameríndias?

Em primeiro lugar esta etnia encontrava-se num espaço socioeconómico que não é tido em consideração, pelo público em geral, relativamente à sua importância dentro do quadro da Ameríndia. A sobreavaliação das altas culturas indígenas do continente americano (nomeadamente a Mesoamérica e os Andes), tem relegado para um plano apagado outras áreas culturais deste hemisfério quando, de facto, a América Central foi de extrema importância como local de comunicação interétnica, económica e até de desenvolvimento de práticas inovadoras de ourivesaria que chegaram tão longe como à Mesoamérica (neste caso através do Oceano Pacífico) e aos Andes Centrais. Na região atlântica, o tempo precedente à invasão europeia caracterizou-se por ser um período de marcado ritual religioso, onde alguns símbolos sugerem influências meridionais; toda a região vivia um momento de grande ebulição e de consolidação das sociedades agrárias através do senhorio étnico e teocrático. Na Costa Rica levantaram-se, em redor das áreas cerimoniais e cemitérios, montículos de paredes e recintos semienterrados com muralhas de pedras. Também se construíram aquedutos e caminhos empedrados. Levantaram plataformas piramidais que serviam de bases templárias. Por sua vez, estavam presentes outras características especificamente meridionais como alguns objectos de culto, a utilização de redes para descanso (de origem caribe) e tecidos feitos de casca de árvore que sugerem contactos com grupos arawaks. As regiões dos povos chiriqui e diquís, assim como a de Veraguas no Panamá, apresentam estreitas afinidades.

O intercâmbio deste período foi tão intenso como o tinha sido anteriormente e muito do artesanato chegou à cidade maia de Chichén Itzá por via comercial; além disso mantiveram vínculos comerciais com a península de Nicoya, de onde obtinham o jade. Na Costa Rica realizou-se uma das mais originais talhas líticas da América antiga; sobretudo com os Metate-jaguar, que são de difícil manufactura e cuja utilidade mítica cerimonial estava relacionada com o culto do milho. A cerâmica coclé sobressai, como expressão da sua alta qualidade plástica, e as suas descobertas materiais são atribuídas aos guaimí ou cueva, tribos também dedicadas a um amplo comércio e realização de joalharia com ágata, que se difundiu até à região de Oaxaca, no México. Na última etapa coclé, encontrou-se um pátio destinado ao jogo de bola, muito similar aos pátios existentes no Haiti, sugerindo que grupos arawaks, ou pelo menos os seus costumes, teriam chegado ao Panamá. Tanto na América Central, no istmo, nas costas colombianas ou venezuelanas, o modelo que se foi impondo foi o dos territórios caciques; poderosos senhorios étnicos rodeados e apoiados por um grupo de elite e por outras comunidades subordinadas. Todas estas relações eram reforçadas por políticas matrimoniais, baseadas normalmente na poligamia. Dentro deste quadro, poderemos salientar, da cultura arawak, a cerâmica que chegou a ser um dos signos da sua identidade (como com outros povos).

“A sobreavaliação das altas culturas indígenas do continente americano (nomeadamente a Mesoamérica e os Andes), tem relegado para um plano apagado outras áreas culturais deste hemisfério quando, de facto, a América Central foi de extrema importância como local de comunicação interétnica, económica e até de desenvolvimento de práticas inovadoras de ourivesaria.”

Mais originais foram as pranchas para produzir caçabe – uma torta de farinha feita da raiz da mandioca – diverso mobiliário doméstico realizado em madeira negra e brilhante – ou duhos – e umas plataformas de madeira e couro para dormir ou descansar chamadas barbacoas. Os seus tecidos eram de algodão. Estirando a fibra sobre as pernas das tecedoras, até obterem um fio delgado com as quais realizavam peças de roupa finas e delicadas – as naguas –  ou saias das mulheres casadas. Obtinham o ouro nos rios e moíam as pepitas com pedras de cantos arredondados até obterem lâminas finas, que às vezes serviam para realizar peitorais, braceletes, argolas para se pendurarem no nariz, orelheiras, ou elmos com os quais cobriam as suas cabeças. Para além disso, os objectos de ouro e outras manufacturas, como os tecidos, serviam para um extenso intercâmbio de produtos especializados; não apenas entre os diversos grupos territoriais, mas entre as ilhas, inclusivamente com o continente.

De forma natural, as canoas constituíam uma das suas particularidades. Eram formidáveis embarcações para a navegação pelo Caribe, percorrendo com elas longas distâncias. Algumas podiam ser de grande tamanho, tendo capacidade para transportar mais do que cinquenta pessoas. Devido à vasta extensão de território que era ocupado pela etnia arawak, com uma clara unidade linguística, em relação aos seus vizinhos mais próximos (mesmo tendo em conta centros urbanos considerados desenvoltos, como os dos zenú ou os tairona, da Colômbia), os antilhanos são actualmente considerados como uma irradiação de alta cultura; partilhando do mesmo estatuto que os complexos do Mississípi ou do noroeste argentino, por exemplo. No entanto, a sua especificidade e originalidade advém sobretudo do seu meio natural, onde as ilhas são verdes e férteis. Os primeiros marinheiros europeus que as avistaram ficaram deslumbrados pela sua beleza e hoje, apesar da feroz depredação do meio ambiente a que foram submetidas desde 1492, continuam a oferecer aos viajantes uma imagem idílica e paradisíaca. O seu clima temperado e suave, ao estarem incluídas entre os trópicos, concebe a toda a zona condições muito favoráveis para a vida em todas as suas manifestações.

Em que aspectos pode ser encontrada a herança taina na Cuba de hoje?

Gostaria de ter alguma experiência, em primeira mão, para poder ser mais pertinente na resposta a esta pergunta. No entanto, vou sumarizar alguma da informação disponível, no sentido de se poder contextualizar os aspectos mais evidentes que se podem encontrar desta cultura nos nossos dias. Os arawak, caribe e outras culturas da costa mesoamericana e do Amazonas podem ser considerados como parte de uma ténue continuidade de nações; ligados por algum vocabulário partilhado, ligações étnicas, práticas agrícolas; reforçadas pela renuncia das noivas e exogamia continuada. Depois da violência da invasão europeia e os subsequentes eventos da escravatura africana exportada para as américas, conjuntamente com as rebeliões; várias nações e culturas com diversos montantes de etnicidade arawak, com a sua respectiva cultura e tradições, transmutaram-se e tomaram forma. Algumas destas nações incluíam uma mistura, ou mesmo uma predominância de raízes africanas, incluindo os Cimarrón de Cuba ou o povo Maroon da Jamaica e Guiana.  O nome destas distintas culturas são transliterações – aparentemente com raízes arawak ou ciboney – do Cimarrón original. Apenas os caribe permaneceram como as populações originais das Antilhas. Ciboney é o termo preferido no contexto histórico de Cuba para denominar as nações neo-Taino-Ciboney.

O conhecimento geral das culturas indígenas cubanas concentrou-se, como vimos de forma algo imprecisa, na categoria denominada taino cujo conhecimento deriva das crónicas espanholas, tradição oral e das evidencias arqueológicas. Alguns académicos consideram importante distinguir os tainos das nações neo-tainas de Cuba, Porto Rico, Hispaniola, os lucayan das Bahamas e da Jamaica. Isto se atendermos à tese de que os neo-tainos, por alturas da invasão europeia, dispunham de uma maior diversidade cultural e uma mais vasta heterogeneidade social e étnica que os arawak originais. Como em outros casos de denominação de povos indígenas, os termos tendem a ser aproximativos; mesmo o nome arawak parece ter derivado de um termo insultuoso, atribuído pelos caribe, que significa “comedores de farinha”. Em troca, a lenda arawak explica as origens dos caribe como rebentos de uma serpente pútrida. Seja como for a denominação destes grupos, eles são sem dúvida parte de uma cultura assimilativa, amplamente difundida; circunstância testemunhada nos nossos dias pelos nomes de lugares do continente americano. Por exemplo, localidades ou rios chamados Guamá podem ser encontrados em Cuba, Venezuela e Brasil. Guamá foi o nome de um famoso arawak que combateu os espanhóis. Cuba, a maior ilha das Antilhas, era originalmente dividida em 29 chefias. A maior parte das localidades indígenas tornou-se na localidade de cidades coloniais espanholas, mantendo os seus nomes originais; como por exemplo: Havana, Batabanó, Camagüey, Baracoa e Bayamo; assim como a derivação do nome da própria ilha.

“A língua arawak não é falada mas existe uma forte identidade “índia”  na actualidade.  O aspecto mais comum, de reconhecimento da expressão cultural cubana, encontra-se através da sua rica tradição musical. A forma central desta tradição é o Son, que tem sido a base para muitos outros estilos musicais como a salsa, a rumba e o mambo e uma derivação da rumba, o cha-cha-cha.”

Comunidades de descendentes das populações originais continuam a existir no Este de Cuba. A língua arawak não é falada mas existe uma forte identidade “índia”  na actualidade.  O aspecto mais comum, de reconhecimento da expressão cultural cubana, encontra-se através da sua rica tradição musical. A forma central desta tradição é o Son, que tem sido a base para muitos outros estilos musicais como a salsa, a rumba e o mambo e uma derivação da rumba, o cha-cha-cha. A rumba é uma forma musical com origens na cultura Afro-Cubana inicial. O Tres foi também inventado em Cuba, mas outros instrumentos tradicionais cubanos são de origem africana e arawak, ou ambos; como as maracas, o güiro, a marimba e vários tambores de madeira, incluindo o mayohuacan.

O antropólogo e arqueólogo Pedro J. Ferbel Azacarate escreveu que os arawaks e africanos viviam em comunidades Maroon isoladas, desenvolvendo-se em populações rurais com influencias culturais predominantemente arawak, pois teriam a vantagem de conhecer o habitat nativo. Ferbel documenta que mesmo os dominicanos rurais retêm traços linguísticos arawak, assim como práticas agrícolas; dieta, medicina, práticas de pesca, tecnologia, arquitectura, história oral e visões religiosas. No entanto, estes traços culturais são vistos negativamente, com frequência, pelas populações urbanas que as consideram antiquadas. «É surpreendente como muitas tradições, costumes e práticas taino continuaram,» afirma David Cintron, que escreveu a sua tese de graduação sobre o movimento de revitalização taino. «Tomamos como garantido que estas são práticas de Porto Rico ou de Cuba e nunca percebemos que elas são taino.» Grupos herdeiros como  a Nação Tribal Jatibonicu do Boriken (Porto Rico, 1970), a Nação Taino das Antilhas (1993), Confederação Unida dos Povos Taino (1998) e El Pueblo Guatu Ma-Cu A Boriken Puerto Rico (2000), foram estabelecidas para resgatar a cultura original. No entanto é controverso se estes grupos herdeiros representam com precisão a cultura arawak. Alguns grupos são conhecidos por “adoptar” outras tradições, nomeadamente dos indígenas das planícies Norte americanas. Muitos dos aspectos da identidade arawak foi perdida para sempre ou tornada crioula, pelas culturas espanhola e africana, com o passar do tempo nas Antilhas. Os povos que reclamam descendência indígena nas ilhas de Porto Rico, Hispaniola e no Este de Cuba têm tentado manter uma conexão cultural com as suas identidades históricas. Activistas Taino criaram duas formas de ortografia única. Esta ortografia é usada para escrever espanhol e não uma linguagem retida pelos ancestrais pré-colombianos. A organização Guaka-kú usa e ensina a sua ortografia entre os seus membros. E a Liga Guakía Taina-ké promoveu o ensino da sua ortografia, entre os estudantes do ensino elementar, para fortalecer o interesse pela identidade original arawak.

Que importância tem no seu ver a iniciativa de Eduarda Coutinho, acolhida pela CAL?

Se a arte foi, em outros tempos, uma expressão clara e unilateral de identidade, ela hoje elege-se como um campo múltiplo de reflexão social; individualizado pelos discursos assumidos através dos seus autores. Sabemos que a humanidade pode viver sem escrita mas seria-lhe impossível viver sem arte, pois esse é o campo mais intimo da sua expressão. Eduarda Coutinho valoriza, com este trabalho, um diálogo paralelo entre várias dimensões do tempo e do espaço. Em primeiro lugar, com ele podemos aceder através da sua interpretação a uma comunicação plástica que desafia as nossas convenções – e referências – acedendo a uma experiência estética renovada. Nesse sentido, encontra-se já inerente um diálogo que mergulha na noite dos tempos e que vai na direcção de um reencontro com uma cultura que nos é, para todos os efeitos, alienígena mas que, ao falar do outro, se refere a uma parte de nós próprios. Simultaneamente, ao realizar essa ponte temporal – e aqui parece-nos quase uma analogia com as funções evocatórias e transcendentes das entidades Zemí – o seu trabalho referencia também o espaço físico, onde este diálogo pode tomar forma, através do repositório que constituem os museus e outras instituições afins. Todos sabemos, por experiência própria, como estes lugares da memória se revestem de uma certa “sacralização”; observáveis pelos “adoratórios” que constituem as vitrines das salas, de iluminação ambiental, ou pelo simples facto de nos museus se falar muito baixinho, como dentro das igrejas. Contudo, não é só esse o espaço que serve de memória. Esse material jaz, para ser contemplado, inserido no espaço geográfico e social da modernidade cubana: as instituições onde Eduarda trabalhou são, também elas, uma parte da actualidade cubana. Os ecos do passado irão permutar com a autora uma reinterpretação plástica que acaba por assumir uma nova identidade; ao mesmo tempo que nos dá as pistas para reencontrar o passado, descobrindo-o com uma percepção mais próxima de uma justiça imaterial; ou seja, para além das glórias nacionalistas ou dos movimentos históricos.

Seguramente, esta experiência terá enriquecido o trabalho e vivência pessoal desta artista. Complementando de forma séria e criativa um trabalho continuado e consistente, por parte da organização que agora o acolhe, dentro do âmbito de vários eventos realizados referentes ás culturas indígenas da América Latina. Esta proposta acrescenta valor a outras iniciativas das quais gostaria de relembrar a conferência de Miguel Conde sobre a conquista de México-Tenochtitlán; o Curso de Verão que em 2012 incluiu uma aula sobre a Arte das culturas pré-colombianas; a excelente conferência sobre a actualidade dos povos indígenas, levada a cabo no Museu da Electricidade, ou a passagem do documentário Los Mapuches no existen de Jorge Figanier Castro; este último visualizado no espaço onde esta exposição agora vai ser apresentada.

O diálogo com o passado não permite somente interrogar e perceber o presente; como nos possibilita escolher quais as portas que devemos – cautelosamente – abrir para o futuro.