Entrevista a Rui Grácio sobre Papa Francisco e a fé

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Rui Grácio, frade dominicano e teólogo ontem presente num debate na Casa da América Latina sobre o Papa Francisco e a fé na América Latina, conversou com a CAL sobre alguns dos temas fundamentais da experiência católica na região.

Que impressão tinha do actual Papa antes da sua nomeação?
Eu tive contactos com as mães da Praça de Maio, na Argentina, mas a minha experiência na América do Sul deu-se sobretudo no Brasil. Recordo que Jorge Bergoglio não era um dos cardeais mais destacados no país, talvez porque não fosse claramente um apoiante ou um crítico da ditadura, e portanto não foi uma figura particularmente polémica.

Como é que os latino-americanos vivem a religião católica?
A religiosidade dos latino-americanos é diferente dependendo das classes sociais e dos países. Há países mais secularizados, outros com uma presença indígena maior. Por exemplo, a Guatemala é um caso bem distinto do Brasil, da Argentina, do Chile ou do Uruguai. Em todos os países, no entanto, parece certo que o peso da Igreja tem decrescido, talvez devido à ascensão social e cultural da burguesia.

Em que medida essa experiência popular é influenciada pela Teologia da Libertação?
Bastante, ainda que também aqui as experiências sejam distintas em vários países. A Teologia da Libertação foi particularmente forte nas décadas de 70 e 80, como forma de combate às ditaduras militares. Continua presente hoje, mas está patente sobretudo nas questões socioeconómicas, na luta contra a pobreza. Na América Central a Teologia da Libertação teve historicamente um papel mais relevante, com inúmeros casos de confrontos populares com os exércitos. Muitos disseram por aquela altura que a Teologia da Libertação era o principal movimento dentro da Igreja depois da Reforma.

A nomeação de um Papa argentino tem influência sobre a prática religiosa na região?
A Argentina, e a América Latina em geral, receberam com entusiasmo a nomeação deste Papa. Houve também nos sectores políticos alguma apropriação, por exemplo da parte da actual líder argentina, Cristina Kirchner. Para mim, no entanto, é relevante sobretudo considerar se essa nomeação permitirá melhorar as condições socioeconómicas dos latino-americanos, em particular dos indígenas, que contestam a própria ideia de uma entidade latino-americana. De qualquer modo, a nomeação do Papa, se tiver consequências positivas sobre a vida na região, poderá vir a influenciar o modo como nós, na Europa, vivemos o Evangelho. A Igreja por cá é muito burocratizada.

Como vê que o Papa abdique de vários símbolos do seu poder e assim rompa com a tradição?
Ele parece franco e verdadeiro no modo como governa a Igreja. É aberto, ainda que isso não signifique necessariamente que é um progressista. Mas é aparentemente mais latino-americano do que os seus antecessores, no sentido de ser mais próximo, mais presente. A questão fundamental, ainda assim, é se terá capacidade de alterar a estrutura da Igreja.

O Papa Francisco poderá correr riscos ao hostilizar correntes mais ortodoxas da hierarquia?
Já hostiliza, mas vive ainda um pouco um estado de graça e nota-se que está inspirado. Mas a Igreja é uma instituição monárquica e eu espero que ele consiga pelo menos colaborar para alterá-la um pouco. As críticas à Igreja são muito fortes há muito tempo.

Este Papa poderá ser um descentralizador?
Espero que sim.

E poderá desgastar-se no modo como contacta os seus seguidores?
Talvez, mas certamente não nos próximos tempos. O cargo requer vitalidade, em particular se vivivo do modo como o Papa o vive. Mas ele parece ter a vitalidade necessária, pelo menos para já.

A Igreja continuará a perder crentes devido a escândalos, como os financeiros ou os de pedofilia?
Creio que sim, porque a estrutura é rígida. É até bom que as pessoas se afastem para que a Igreja perceba que tem de mudar.

Como seria a Igreja ideal para si?
Uma Igreja que segue a palavra e os actos de Jesus da Nazaré. Fraterna, mas ao mesmo tempo exigente na proximidade com as pessoas e na mensagem que transmite. A revolução de Jesus Cristo foi uma revolução fraterna, de igualdade, de paz e de justiça. Estamos ainda longe de perceber exactamente o que ele queria transmitir, há várias correntes de pensamento. A figura de Jesus será sempre polémica.