Eduardo Lourenço entregou prémio a Pizarro

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Jerónimo Pizarro, “o mais jovem dos heterónimos pessoanos” no dizer de Eduardo Lourenço, recebeu (ver vídeo) na Câmara Municipal da Guarda, no passado dia 7 de Junho, o prémio que tem o nome do maior ensaísta português. Nas palavras que dedicou ao vencedor, Eduardo Lourenço referiu: “para um pessoano como eu é grato saber que um jovem veio renovar o trabalho que comecei”.

A vice-reitora da Universidade de Salamanca, parceira neste prémio, destacou o seu significado ao permitir estabelecer pontes e alargar o seu horizonte à Ibero-América.

Após as intervenções e o elogio de Pizarro feito por José Barreto, Pizarro afirmou nas palavras de agradecimento que está “a viver entre os dois continentes. Sinto que pertenço às duas culturas”, afirmou.

Leia aqui o discurso de Jerónimo Pizarro:

Há pouco tempo, em Bogotá, uma amiga portuguesa disse, numa reunião: «Culturalmente, Portugal sempre foi avesso à mudança. É uma Nação pouco intervencionista e, como tal, menos reformista». Confesso que esta declaração me chocou, particularmente numa altura em que as redes sociais estão tão cheias de vozes e alvitres e os locais de decisão política tão vazios de pessoas e acções. Não sei qual é a saída para a crise actual, que voltou a tornar vigentes tantos textos da geração de 70 e dos Vencidos da Vida, mas sei que sem uma transformação significativa no andamento do País que conhecemos e tanto amamos, será difícil transformar a nossa «vidinha» – essa palavra tão portuguesa, a que Alexandre O’Neill foi tão sensível em Feira Cabisbaixa, e não só – numa Vida, com maiúscula de dignidade e plenitude. As conquistas da Europa, que se medem cidadão a cidadão, nomeadamente nos planos social e cultural, não podem ser colocadas em cheque por uma crise que é menos dos valores europeus, do que de uma inércia individual e colectiva demasiado prolongadas. Mudar, às vezes, é uma afirmação de Vida, um modo de proteger o nosso património, material e imaterial, de abandonar uma rotina, tantas vezes «tão mansa, quase vegetal», a que nos submetemos por melancolia ou cansaço. E Portugal precisa de mudar de ânimo e de rumo, e para o fazer tem de se abrir, como já antes o fez tantas vezes, ao mundo, para lá da própria Europa, sem abandonar, naturalmente, a própria Europa, que terá de sacudir o seu imobilismo, o que Eduardo Lourenço bem retratou numa frase simples: “Esta Europa tornou-se um museu de si mesma”.

Cansativa Europa esta, de equipas incultas de gestores e contabilistas viajantes, impondo restrições, sem criar, em simultâneo, as condições para tornar mais pujantes cada um dos países visitados. Mas basta lembrar, para sonhar um país do novo milénio, a forte identidade nacional, ibérica e mediterrânica, a vitalidade expandida e universalista da língua lusófona, a febre sempre viva de independência e liberdade. Basta lembrar o tempo e os feitos de uma longa e surpreendente História, pautada sempre pela capacidade de luta e superação das dificuldades.

Neste sentido lamento profundamente a existência e a perseverança de todo o tipo de redutos fechados, a que as Universidades também não escapam, numa espécie de apoucada nostalgia do senhorio e do feudo, e celebro amplamente a abertura, o diálogo, a cooperação e o espírito construtivo, sem mediar falsas fronteiras e outros absurdos limites e poderes. Concordo com Guilherme d’Oliveira Martins quando disse que: «A cultura portuguesa sempre se tornou mais rica, abrindo-se, dando e recebendo». E não só a portuguesa: qualquer cultura sempre se tornará mais rica quando se abrir, pronta a dar e a receber. Hoje, na América Latina, os países mais pobres são os culturalmente mais fechados. Hoje, na Europa, os países mais ricos são os culturalmente mais abertos. E um dos mais abertos, sem dúvida, e desde as suas origens, é Portugal, pelo que, se ao arrepio da História não se deixar limitar financeiramente, só poderá ser também um dos países mais ricos. Os portugueses sempre foram um povo aberto e plural. Tanto que Fernando Pessoa refundou a identidade portuguesa sonhando-se, a si próprio, prolixamente diverso. E nunca esteve tão só como poderia parecer.

Falar da identidade de um povo é também falar da sua capacidade de incólume projecção no mundo, por reflexão e refracção, preservando as diferenças e exaltando as afinidades, abrindo passo ao que Oliveira Martins certeiramente chama “múltiplas trocas e complementaridades”.
Esse é o Portugal que somos. Que sempre fomos. De pé e de braços abertos.

E hoje, portanto, venho aqui agradecer esses braços abertos com que este país me recebeu há mais de uma década e reafirmar os laços transatlânticos que me unem com a literatura e a cultura portuguesas, desde que aceitei ser o titular da Cátedra do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua – na Colômbia e o Comissário da visita portuguesa à Feira Internacional do Livro de Bogotá, 2013; e já muito antes, desde que, quer através dos meus estudos de pós-graduação, quer através dos trabalhos críticos que tenho levado a cabo, tentei aproximar as literaturas portuguesas e hispânicas. Neste momento, em que divido o meu tempo mental e físico entre o continente europeu e o americano, sinto que estou a viver nos dois mundos em que me formei e encaro com serenidade e alegria esta partilha.

É neste contexto que aceito, humilde e reconhecidamente, a honra deste Prémio! Tudo farei para o merecer!

Uma outra amiga, também portuguesa e, casualmente hoje parte da minha família, disse-me, há muito tempo, que tinha aprendido a pensar com Eduardo Lourenço; que só achava que tinha começado realmente a pensar depois de passar por Eduardo Lourenço. E que um dia, recentemente, quando se encontraram no adro da Basílica da Estrela, durante o acto oficial que assinalou a trasladação dos restos mortais de Jorge de Sena, seu primo, foi capaz de dizer isso mesmo e pessoalmente a Eduardo Lourenço, beijando-lhe as mãos, que eram a fonte material da sua escrita. Haverá algo mais sagrado e mais fundo que possa dizer-se de um Mestre?

Eduardo Lourenço, na sua «Lembrança espectral da Guarda», com essa linguagem dura e cândida que também me ensinou a pensar, lembrou uma frase de Vergílio Ferreira, «Da minha língua vê-se o mar», e disse que era curioso que o Vergílio Ferreira a tivesse dito, porque «da sua língua natal, da língua desta beira serrana, não se vê o mar». De Bogotá também não se vê o mar, mas pressente-se, oculto e longínquo, por trás das muralhas andinas, e esse mar, simbolicamente, é um elo entre a Europa e a América. «O mar é, foi-nos, porta para o mundo», disse Eduardo Lourenço. E, num outro discurso afirmou que a «Todos nós ibéricos» convinha repensar «quem fomos, quem realmente somos e quem podemos ser. Todos nós ibéricos». Pois bem, deixem-me apenas reiterar que o mar pode continuar a ser o limiar do mundo para muitos países, nomeadamente para Portugal, e que convém, é claro, repensar quem somos. Mas não apenas nós ibéricos, mas nós ibero-americanos, numa «iniciativa Trans-ibérica», como disse o Mestre Lourenço («CEI – Dez anos»), porque como o próprio disse, citando-o uma última vez, «a América no seu conjunto, desde o norte até ao sul da Patagónia […] não é o nosso passado, é, eu penso, neste momento, de uma maneira muito forte, o nosso futuro» (in «A Península como Problema Europeu»). Eis o Eduardo Lourenço vidente, o Eduardo Lourenço profeta, que mesmo sendo resistente às «seduções exteriores» e moldado como a «pedra dura para resistir ao vento» (in «Oito Séculos de altiva Solidão»), percebe a necessidade de uma abertura trans-ibérica, de uma abertura para a América no seu ubérrimo conjunto.

Sim, Eduardo Lourenço ensina-nos a pensar, sugere-nos caminhos, orienta-nos em tempos de labirintos e fantasmas.

É justo que neste lugar e nesta ocasião eu reconheça que sem o guia de Eduardo Lourenço, eu não teria sido «iniciado» em Fernando Pessoa, eu não teria ultrapassado o limiar de um conhecimento incipiente e, em suma, eu não estaria hoje nesta sala a receber este prémio. Eduardo Lourenço foi o primeiro Mestre, antes de eu concluir estudos em duas universidades portuguesas, onde também encontrei outros decisivos orientadores e amigos. Lembro aqui Fernando Cabral Martins, Isabel Allegro de Magalhães, Fernando J. B. Martinho, Ivo Castro, Manuel Gusmão, João Dionísio, Arnaldo Saraiva, Maria Aliete Galhoz, Onésimo Almeida, Paulo de Medeiros, Patricio Ferrari, Claudia Fischer, António Cardiello, Pauly Ellen Bothe, Steffen DixJosé Barreto. Eles e muitos outros.

Obrigado Eduardo, obrigado a todos, do fundo do meu coração!