Oficina de teatro sobre Nelson Rodrigues

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“Em fevereiro de 1928, os leitores de ‘A Manhã’ já estavam se habituando ao novo colunista semanal da página três, Nelson Rodrigues. Ninguém o conhecia e, pelo que escrevi, era difícil dizer se tinha vinte, quarenta ou sessenta anos – porque, a cada parágrafo, aparentava uma dessas idades. Ou então, no meio de um artigo, mentia sobre sua idade, referindo-se no passado ao tempo em que tinha vinte anos. Fácil de perceber é que não se tratava de alguém mandado de ‘joie de vivre’. Ao contrário, parecia uma alma torturada, sabia-se lá por quais martírios. Mas não entrava nas cogitações de ninguém que se tratasse de uma alma torturada de quinze anos e meio” (p. 62)

“A primeira cópia de ‘Vestido de Noiva’ foi para Manuel Bandeira em fins de janeiro. Nelson conhecera Bandeira menos de dois meses antes, quando o poeta tinha ido à redação de ‘O Globo’ e alguém os apresentara. ‘A mulher sem pecado’ ainda estava em cartaz e Nelson dera-lhe ingressos para que ele fosse vê-la. Bandeira acabara indo, sem qualquer entusiasmo porque, como dizia, não tinha paciência com teatro nacional. Achava uma tristeza aquelas peças ‘para rir’, cheias de piadas óbvias, e se irritava com o tom de orador de turma dos atores brasileiros. Mas o que vira em ‘A mulher sem pecado’ o surpreendera: ‘O diálogo era de classe – rápido, direto e, por ser assim, facilitava aos atores a dicção natural’. Bandeira gostara particularmente do contraste entre o falso paralítico, que falava sem parar, e os dois personagens mudos, a velha e a menina, ‘figuras quase que exclusivamente plásticas, sugestionadoras de mistérios inquietantes’”. (p. 159)

“O ônibus que Nelson tomava quase todo dia na Central do Brasil para ir almoçar com sua mãe era o ’115′, da linha Laranjeiras-Estrada de Ferro. Um dos choferes, um pernambucano chamado Rubem Francisco da Silva, gostava de exibir-se: tinha 27 dentes na boca, mas eram todos de ouro. Abria a boca ao ponto final da rua General Glicério e dizia:
‘Olha só! Pode contar, um por um! E não é coroa, é maciço! Ouro 24!’
Não se sabe se, rodando diariamente da Central às Laranjeiras com aquela boca de milhões, Rubem Francisco da Silva viveu para ver o espetáculo. Mas Nelson capturou o mote dos seus dentes, combinou-o com um personagem real do submundo carioca, o ‘bicheiro’ Arlindo Pimenta, e com esse material produziu a sua nova peça: ‘Boca de Ouro’” (p. 311)

“Nelson morrera a poucos dias do Natal [1980], uma data que, para ele, transcendia profundamente a vulgaridade das folhinhas e das promoções das lojas de varejo. Alguns anos antes, numa noite de solidão, ele escrevera uma curta e definitiva crônica de Natal para ‘O Globo’, intitulada ‘A vigília dos pastores’.
Como se orasse pelo momento de subir ao céu, o anjo pornográfico dizia:
‘Escrevo à noite. Vem na aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é essa vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda a parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores – na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá; Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida’” (p. 420)

Ruy Castro (2004) O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro: Companhia das Letras