Entrega do Prémio de Tradução Literária

Etiquetas: , ,
___________________________________________________________________________________

As palavras do Presidente do Júri, Vasco Graça Moura:

Na entrega do Prémio de Tradução da Casa da América Latina a Cristina Gutiérrez e Artur Guerra

Discurso de Vasco Graça Moura: Nos últimos anos tenho defendido a ideia de que traduzir uma obra literária é como tentar tirar uma “fotografia verbal” a um objecto também verbal, com a preocupação de se registar o que se viu com o mínimo de deformações, através de uma lente que é um instrumento de grande complexidade, em parte objectiva e em parte subjectiva, uma vez que nela se articulam a língua de recepção e a maneira como o tradutor a utiliza e se exprime nela com as suas idiossincrasias e a sua experiência.

O resultado exprime-se por uma série de gradações a preto e branco que envolvem um certo coeficiente de reconhecibilidade. Ninguém é a preto e branco na vida real. Isso não nos impede de, por vezes, acharmos muito parecido determinado retrato a preto e branco e até melhor ou “mais fiel” do que se tivesse sido feito a cores. É certo que estes aspectos se tornam mais sensíveis em se tratando de traduzir poesia, mas a questão põe-se identicamente na tradução da prosa, em especial na da prosa de ficção, em que os valores lexicais e estilísticos, as opções estruturantes e o ritmo narrativo assumem grande importância. Não nos esqueçamos daquela citação de Saint-Réal feita por Stendhal: « un roman c’est un miroir que l’on promène le long d’un chemin »… Tenho para mim que a língua em que esse romance é escrito, ou aquela para que é traduzido faz parte da substância mesma desse espelho.

Vasco Graça Moura: O tradutor também é “autor”. A objectiva fotográfica não é apenas a língua através da qual se espreita através do seu utente qualificado: tanto ela como a câmara utilizada fazem parte de um complexo social e psicossomático (este, o da personalidade e capacidade intelectual, emotiva e técnica, e das próprias concepções do tradutor quanto à maneira de executar a sua tarefa). Há muitas teorias em presença, mas a praxis de longe dominante ao longo dos séculos, na história da cultura, tem sido a de se tentar fazer «o mais parecido possível», usando esta expressão em termos corriqueiros de realismo vulgar e, sendo caso disso, corrigindo depois as teorias na prática, sempre em nome de uma semelhança de grau superior a atingir.

É aqui que o equilíbrio das relações entre os elementos do texto na língua de recepção e a sua homologia com o texto na língua de partida ganha um relevo especial. É aqui que o tradutor tem de correr os maiores riscos: ele sabe que não vai fazer “igual” e precisa de decidir se vai usar uma expressão literal ou uma perífrase, se vai manter patterns de sonoridade e homofonia ou desviar-se deles, se vai deslocar a concentração de intensidades, a iluminação e a nitidez, se vai ser mais concreto ou mais difuso, recuperar ou perder eventuais polissemias e jogos de palavras, explorar sinonímias, refabricar ritmos e prosódias semelhantes ou não, se vai lançar mão de um registo mais ajustado às variáveis em presença, ou se vai procurar compensações ou soluções de compromisso aceitável entre todas as variáveis em presença. Muitas vezes, a sua escolha é limitada pela própria resistência dos materiais.

Mas o que importa é que a tradução, quer quanto à forma, quer quanto ao conteúdo, diga “quasi la stessa cosa”, para usar uma expressão de Umberto Eco.

Para o prémio que vamos entregar hoje, a questão torna-se mais complexa, uma vez que se trata, não de um, mas de dois tradutores que colaboraram na tradução da mesma obra, o que significa que eles também tiveram de negociar entre si o resultado que acabam por apresentar.

Sem prejuízo de outras considerações quanto à qualidade e à eficácia dessa parceria tradutória, diga-se desde já que o gigantismo da obra justificava, só por si, a repartição de tarefas e a colaboração. O que torna ainda mais notável a homogeneidade do resultado.

O romance, ou melhor, a articulação da estrutura ficcional de cinco livros sob o título 2666, de Roberto Bolaño é uma obra marcante das literaturas sul-americanas. Creio que é ainda cedo para dizer se o é da literatura universal. Bolaño morreu há poucos anos e só o tempo, com o seu papel de morosa filtragem, o tempo que «es el auctor de todalas epopeyas», como uma vez ouvi dizer a Jorge Luís Borges aqui em Lisboa, é que poderá vir a dizê-lo.

A alusão ao género épico tem alguma justificação. É tal a saturação de crueldade contemporânea em 2666, que se dá como que uma reversão das categorias do romanesco para as do épico e por aí se acede à trágica dignidade de um mito, absoluto, intemporal e intolerável. Segundo Marcela Valdês, as ambições do Bolaño para 2666 eram “escrever um epitáfio para os mortos do passado, do presente e do futuro”. Mas a complexidade da estrutura, a trama tão complicadamente urdida de fios narrativos e matérias tão diversas como as relações intelectuais, afectivas e sexuais entre professores universitários, jornalistas, artistas e escritores, e o encadeamento de uma série intérmina de assassínios abomináveis de mulheres no México, a maneira como responsabilidade e desresponsabilização se enfrentam e reenviam na obra do autor, as modalidades do mal numa permanente renovação que se diria ontológica, ou, para citar o Bolaño, «a proliferação de instantes que rivalizam entre si em monstruosidade», a variedade de processos narrativos de que Bolaño lança mão, as mudanças de registo que vão da subtileza à brutalidade, a sua arte da ironia pondo tudo e todos em causa, enfim, aquilo que ele próprio designou, quando ainda em fase de work in progress, como «um emaranhado demencial que certamente ninguém entenderá», são outros tantos desafios que se colocam aos tradutores e que eles resolvem não apenas com grande competência e rigor, mas com particular felicidade estilística e expressiva.

A colheita deste ano das obras candidatas ao prémio é extremamente importante. 2010 foi um annus mirabilis na edição portuguesa de obras sul-americanas. Grandes autores como Mário Vargas Llosa, Luís Sepúlveda, Roberto Bolaño, entre outros, foram traduzidos e editados. Acontece que as traduções apresentadas a este concurso são, quase todas senão todas, de muito boa qualidade. Mas o júri, no embaraço da escolha, optou por este trabalho, a que me permito chamar ciclópico, e que ficou a dever-se a Cristina Rodriguez e Artur Guerra, entendendo, todavia, dever chamar a atenção para o nível muito alto do trabalho de Salvato Teles de Meneses, tradutor de Balas de Prata, de Elmer Mendoza.

Esta dupla de tradutores, de resto com muito vasto currículo profissional, mostrou que sabe bem como a tradução é, no dizer de Umberto Eco, a língua mais falada do mundo, língua essa que depois assume peculiares tonalidades em cada uma das áreas onde se processa a sua recepção. No seu trabalho de tradução para português de 2666, fica-se com a impressão de que a fotografia a preto e branco a que comecei por aludir, neste exercício de precisão na captação dos efeitos literários de Bolaño, afinal se aproxima bastante da fotografia a cores…

Por tudo isso, felicitemos os tradutores, sem esquecer a editora que soube valorizar o seu trabalho, abalançando-se a publicar um livro desta envergadura.

Vasco Graça Moura